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Linguiças calabresas

Luis Fernando Verissimo

- Alô?

- Quem fala?

- Quem quer saber?

- Quem é, por favor?

- Diga você quem é.

- O Dr. Márcio está?

- Quem quer saber?

- Está ou não está?

- Depende.

- Depende do que?

- De quem quer saber.

- É o...

- Espere! Qual é o assunto?

- O assunto é com o Dr. Márcio.

- Pode dizer pra mim.

- Mas quem é você?

- Primeiro me diga quem é você.

- Aqui é o...

- Não use seu nome verdadeiro!

- Por quê?

- Use um pseudônimo.

- Que história é essa? Por que pseudônimo?

- Podem estar gravando.

- Quem?

- E eu sei?

- Dr. Márcio... é o senhor?

- Não. Meu nome é... deixa ver... Balduino.

- Você se chama Balduino?

- Claro que não. É pseudônimo. Invente um também.

- Isto é ridículo.

- Eu vou desligar.

- Está bem! Frajola.

- Frajola?!

- Jaime! Jaime!

- Muito bem, Jaime. E qual é o assunto?

- É com o Dr. Márcio.- Pode me dizer que eu transmito pro Márcio. Que também é um pseudónimo, claro.

- “Márcio” não é o nome do Dr. Márcio?

- Depende do assunto.

- É sobre o pacote que ele encomendou do...

- Espere! Não fale assim tão claramente. Use linguagem figurada.

- Linguagem figurada?

- É. Em vez de pacote diga coisa. Não, coisa pode ser mal interpretada. Diga “encomenda”.

- A encomenda que ele encomendou do...

- Não diga o nome!

- Por quê?!

- Não queremos incriminar ninguém.

- Mas não há crime algum!

- Isso vai depender da interpretação. Esta conversa já está pra lá de suspeita.

- Eu só queria avisar o Dr. Márcio que as linguiças chegaram.

- As linguiças. Boa, boa. O pseudônimo de "encomenda".

- Não, são linguiças mesmo.

- Um pacote de linguiças?

- É. Calabresas. Que o Dr. Márcio encomendou do... de alguém.

- Já entendi! Já entendi tudo. Você é que está gravando este telefonema. Esta conversa toda é para me incriminar. Ou incriminar o Márcio. Pseudônimos. Linguagem figurada. Já vi tudo! Amanhã ela sai no Jornal Nacional, e é óbvio que "pacote de linguiças calabresas" vai parecer código.

- Mas foi você que sugeriu os pseudónimos, a linguagem figurada, o...

- Arrá! Vocês não me pegam. Nego tudo. Aliás, nem sou eu falando. Provem que sou eu.

- Quer saber de uma coisa, seu Balduino? Pra mim, chega. O recado está dado. As linguiças chegaram. Passe bem.


- Espere. Agora me lembro. As linguiças que eu encomendei. Calabresas. Claro, claro. Me lembrei.

- É o senhor, Dr. Márcio?

- É. Claro, claro, sou eu. Desculpe. Sabe como é. A gente vai ficando meio paranóico...


Domingo, 17 de junho de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.